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Menino pobre que sonhava em ser juiz e foi às ruas como PM, Rafhael Neris Barboza agora é delegado em Uruaçu

Em sua primeira nomeação como delegado-titular da Polícia Civil em Goiás, jovem delegado de 29 anos chega à cidade do Norte do Estado com muita disposição para o enfrentamento ao tráfico de drogas, contando com o apoio das demais autoridades e da população uruaçuense: trajetória brilhante e de muitas lutas para superar infância sofrida

Faz apenas 45 dias que Rafhael Neris Barboza, de apenas 29 anos, assumiu o cargo de delegado-titular da Polícia Civil em Uruaçu, depois de aguardar resolução de problemas burocráticos do concurso público do Governo de Goiás que prestou em 2013. É a sua primeira lotação num DP para o exercício da função pública que garantirá ao jovem delegado uma boa remuneração e prestígio, que ele almejava quando estudou Direito em Brasília, pensando em seguir a carreira de juiz. Porém, a vida não foi nada fácil para o ainda menino Rafhael, de família carente, que ingressou por concurso público na Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) aos 20 anos para conseguir pagar a faculdade e prosperar. Na capital federal, o agora ex-PM – naturalmente entusiasta do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) – fez parte da equipe 33 do Grupo Tático Operacional (GTOP 33) em Sobradinho/DF, trabalhando em regiões bastante violentas, quando apaixonou-se pela área da Segurança Pública. Com essa experiência de quem também conheceu as mazelas sociais em regiões pobres da capital do País, o delegado recebeu o Portal Excelência Notícias no dia 27 de novembro para um almoço seguido de entrevista exclusiva em Uruaçu; quando detalhou seu objetivo de resolver problemas decorrentes do tráfico de drogas, tida por ele como a principal atividade criminosa do município. A meta será alcançada, é claro, com o apoio dos experientes policiais civis que já trabalham há muitos anos na cidade. “Para mim, é algo maravilhoso e indescritível todo esse carinho que estou recebendo da minha equipe e do povo uruaçuense neste meu início de carreira como delegado”, comentou Rafhael Neris. Confira a íntegra da nossa conversa com o novo delegado de Uruaçu:

Portal Excelência Notícias Nas conversas que tivemos, antes da gravação dessa entrevista, o senhor me falou que atuou na Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) antes de ser tornar delegado da Polícia Civil aqui em Goiás. Porque a escolha pela corporação?

Dr. Rafhael Neris Barboza – Nunca sonhei em ser um policial militar. Eu fiz faculdade de Direito, porque meu sonho inicialmente era seguir a carreira de juiz. Me formei aos 20 anos na UCB (Universidade Católica de Brasília) com bolsa integral através do ProUni (Programa Universidade Para Todos) porque fiz uma prova boa para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Quando eu estava me formando – pela minha origem humilde e também pela oportunidade – surgiu esse concurso público da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) na minha vida. Estudei para isso, dedicando-me seis meses para as provas. Era uma rotina muito difícil e puxada, pois estava terminando a faculdade de Direito e estudando para esse concurso.

Na época em que trabalhou na PMDF, o então soldado Neris evoluiu na carreira militar e integrou o Grupo Tático Operacional (GTOP), considerado a Tropa de Elite da dentro da corporação da capital federal [Foto: Arquivo Pessoal]
Excelência NotíciasPrestar um concurso público apenas para pagar as contas de sua época de estudante universitário – sobretudo numa atividade difícil, como é a vida de um PM – não foi uma decisão arriscada?

Dr. Rafhael Neris – Olha, quando de fato ingressei na PM-DF, surgiu minha paixão pela Segurança Pública. Eu sempre quis ajudar as pessoas; e não me enxergava apenas como um policial, mas sim como um agente social. Percebia que não adiantava apenas reprimir a criminalidade, mas sim observar outras questões como a pobreza; as mazelas; e as dificuldades das pessoas. E, nessas observações, passei a perceber o que ocorria também com a criminalidade.  Mas, no início, quando me tornei PM, descobri que eu não sabia o que era o mundo. E, na carreira, vi muita coisa negativa que me endureceu um pouco, mas que também me ensinou muito. Pelo aspecto social, o policial pode ajudar muitas pessoas em suas 12 ou 24 horas de serviço. Os treinamentos militares eram muito difíceis; e confesso que pensei várias vezes em desistir. Mas eu precisava ter um salário; e sair da situação econômica que eu me encontrava antes.

Excelência NotíciasO senhor se recorda a partir de quando sua vida começou a melhorar?

Dr. Rafhael Neris – Depois que entrei na PMDF, tive um salário razoavelmente bom; e pude estudar mais. Passei no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) após ter me formado em Direito. Daí, surgiu esse novo sonho, de um dia me tornar delegado de polícia, incentivado por um professor meu, Wilson Garcia, que é agente de investigação em Brasília. Ele me disse “você é capaz”; e eu comprei essa ideia. Estudei mais um ano e hoje sou pós-graduado em Direito Penal e Processo Penal.

Após oito anos na PMDF – onde atuou em situações extremas e bastante difíceis em regiões problemáticas da capital federal – Rafhael Neris pediu exoneração do cargo esse ano para assumir o cargo de delegado em Uruaçu: experiência anterior na área de Segurança Pública representa crédito adicional à autoridade policial ao exercício da nova função no Norte de Goiás [Foto: Arquivo Pessoal]
Excelência NotíciasPosteriormente, até ser nomeado delegado da Polícia Civil aqui em Goiás, como foi essa trajetória?

Dr. Rafhael Neris – Prestei concursos para delegado na Polícia Civil de Alagoas; e do DF; e também para delegado da Polícia Federal (PF). Mas, de repente, eu vi em Goiás – Estado que nasci, pois sou natural de Planaltina de Goiás – a oportunidade que eu queria para prestar o concurso de delegado da Polícia Civil aqui mesmo, em 2013. Debrucei-me neste edital; e estudei sobre a História e a Geografia de Goiás. Porém, ocorreram alguns problemas de ordem burocrática que foram resolvidos definitivamente esse ano. Fui nomeado delegado da Polícia Civil em Goiás há cerca de 60 dias; e a minha designação (para Uruaçu) demorou um pouco para sair. Passei por um Curso de Atualização na Escola Superior da Polícia Civil em Goiânia, um lugar com estrutura magnífica; e que hoje ministra cursos para policiais civis e guardas municipais do Brasil todo, perfeito para esse tipo de instrução.

Na Escola Superior da Polícia Civil em Goiânia, Rafhael Neris recebeu diversas capacitações ao exercício da função de delegado, antes da nomeação para o DP em Uruaçu: na foto, a autoridade policial aparece em treinamento com uma moderna submetralhadora [Foto: Arquivo Pessoal]
Excelência NotíciasTerminada a fase de atualização profissional para assumir de fato o cargo de delegado da Polícia Civil, como o senhor recebeu a notícia de que sua primeira investidura como titular de uma DP se daria em Uruaçu? 

Dr. Rafhael Neris – Vou ser bem sincero pois, quando surgiu Uruaçu na minha vida, eu não conhecia a cidade e nem sabia onde era localizada. Já tinha ouvido falar do Carnaval de Uruaçu, que era muito famoso por aqui. “Meu Deus do Céu, onde é que isso?”, eu me perguntava. Mas, quando cheguei aqui em Uruaçu, fui tão bem recebido pela população; pelos colegas-lotados na DP local; pelo delegado-regional de Uruaçu, Dr. Rodrigo Pereira.  Ele me deu um grande suporte, pois é muito difícil a experiência de iniciar a vida num lugar totalmente novo. Agora, vejo que minha missão de fazer o bem lá atrás (no tempo de PM) será aqui em Uruaçu. Mesmo as pessoas ‘poderosas’ aqui em Uruaçu, as que realmente tem dinheiro, são muito simples e humildes; que te abraçam, que querem te conhecer, me tratando como se eu fosse uma grande autoridade. Para mim, todo esse carinho do povo uruaçuense neste meu início de carreira como delegado, é algo maravilhoso e indescritível.

Ainda em fase de adaptação em sua vida pessoal e profissional em Uruaçu, o delegado Rafhael Neris foi saudado recentemente pelas crianças que participaram da formatura do Proerd na área do 14º Batalhão da Polícia Militar (14º BPM): foco no combate ao tráfico começa cedo com ações preventivas junto aos estudantes [Foto: Arquivo Pessoal]
Excelência NotíciasNesses 30 dias iniciais de trabalho como delegado na cidade, qual a percepção inicial do senhor sobre a criminalidade em Uruaçu?

Dr. Rafhael Neris – Busquei me reunir com o comandante da PM em Uruaçu, tenente-coronel Maxwell Franco de Morais; e com as demais autoridades para saber qual era a realidade da Segurança Pública da cidade. E fiquei muito feliz nesse sentido – com uma expectativa de trabalho muito boa – porque percebi que Uruaçu é uma cidade onde é possível fazer acontecer um trabalho bem bacana, com união e simplicidade, para ajudar a comunidade. De um modo geral, temos poucos crimes aqui em Uruaçu na comparação com outros lugares, como os municípios do Entorno de Brasília e com várias capitais, bastante violentas. Por isso é que eu digo que é possível, sim, combater a criminalidade aqui em Uruaçu, com respostas eficientes da Polícia Civil à sociedade local.

Excelência NotíciasApós assumir o cargo de delegado, quais as orientações iniciais que o senhor deu sobre como seria sua metodologia de trabalho a seus subordinados que já estavam anteriormente lotados na Delegacia da Polícia Civil de Uruaçu?

Dr. Rafhael Neris – Esse é o momento ideal de eu fazer um elogio público a eles, pois deparei-me com uma equipe muito boa de serviço, com muitos anos de experiência na Polícia Civil de Goiás. E os que são mais novos na carreira, também se mostraram muito engajados e compromissados com a missão de atuar na Segurança Pública. Então, todos eles entraram no meu entusiasmo do meu começo como delegado; e corresponderam às minhas expectativas. No meu segundo dia de trabalho em Uruaçu, conforme o senhor mesmo noticiou (no Excelência Notícias) realizamos uma operação em que prendemos oito pessoas, sendo quatro adultos e quatro menores. E o apoio da minha equipe aqui no DP de Uruaçu foi incondicional, com pronta resposta operacional e conhecimento profundo do que ocorre aqui na cidade. São essas qualidades que um policial precisa ter.

Primeiro à direita da imagem, Rafhael Neris compôs a mesa de autoridades uruaçuenses na recente solenidade de formatura do Proerd realizada pelo tenente-coronel Maxwell Franco de Morais (c), comandante do 14º BPM em Uruaçu [Foto: Arquivo Pessoal]
Excelência NotíciasO senhor está realizando uma reforma no prédio da DP de Uruaçu e, no próximo mês de janeiro, teremos a posse do senador Ronaldo Caiado como novo governador do Estado de Goiás. Qual a expectativa do senhor para com ele, não exatamente no aspecto político, mas no apoio às polícias Civil e Militar?

Dr. Rafhael Neris – Nossa esperança maior está no plano federal, com um futuro presidente (Jair Bolsonaro) que se mostra aberto à comunicação com certa valorização às polícias. Em nível estadual, tenho ótimas expectativas porque ele (Caiado) demonstra um carinho especial com as polícias; e prometeu, na sua campanha, melhorar os salários de alguns agentes e policiais militares, já a partir de janeiro.

Excelência NotíciasQual a realidade que o senhor encontrou na Polícia Civil em Uruaçu, quando chegou na cidade, no tocante ao número de viaturas e demais equipamentos?

Dr. Rafhael Neris – Olha, eu imaginava encontrar uma situação bem adversa. Achava eu que não haveriam viaturas, que eu não teria armamento; e nem estrutura adequada para trabalhar. Mas eu me surpreendi, positivamente. Claro que sempre há o que melhorar e o que evoluir, porque surgem equipamentos novos a todo momento, na área da Segurança Pública. Recentemente, participei de uma palestra na Escola Superior da PC-GO, onde nos foram apresentadas novas técnicas de trabalho, com novos tipos de armamentos. Não vou falar que estamos no topo entre as delegacias da PC em Goiás, porque eu estaria exagerando, mas temos um bom aparato. Tínhamos alguns problemas estruturais no prédio da DP, que está sem reformada aos poucos, com ajuda da comunidade uruaçuense; do Conselho Comunitário de Segurança; e da Prefeitura de Uruaçu, para garantir o melhor atendimento possível à população.

Rafhael Neris (c), novo delegado de Uruaçu, na visita que fez ao comandante do 14º BPM da cidade onde foi recebido pelo tenente-coronel Maxwell Franco de Morais e demais militares: cara de mau somente para os bandidos [Foto: Arquivo Pessoal]
Excelência NotíciasMeus colegas da imprensa de Uruaçu noticiaram, a exemplo deste portal de notícias,  que o senhor esteve à frente de uma ação para incinerar 285 quilos de drogas apreendidas na cidade antes da sua chegada ao município. Como será o seu trabalho no combate ao tráfico de entorpecentes na cidade?

Dr. Rafhael Neris – Essa operação de incineração das drogas – a maior parte de maconha, vulgarmente falando – reuniu todas autoridades da Segurança Pública de Uruaçu, com as polícias Civil e Militar; da Polícia Rodoviária Federal (PRF); da Polícia Rodoviária Estadual (PRE); do Poder Judiciário; do Ministério Público; e da Vigilância Sanitária. Foi uma ação conjunta – que eu organizei, pessoalmente – justamente para mostrarmos como será o combate ao tráfico aqui em Uruaçu – nosso ‘cartão de visitas’ – por ser o principal problema da cidade, já que é uma atividade ilícita muito rentável. Fizemos um comboio de viaturas que passou pela principal avenida da cidade (Avenida Tocantins) para que a população se alegrasse e percebesse esse novo momento, com muita policia na rua. E é assim que tem que ser. O dinheiro em mãos erradas fomenta o comércio ilegal de armas; a violência e diversos outros crimes.

Presenteado pela Polícia Militar do Estado de Goiás (PM-GO) com uma camiseta estampada com seu nome e o brasão da corporação goiana, Rafhael Neris recebeu o devido reconhecimento dos PMs lotados na cidade do Norte do Estado pelos oito anos que honrou seu fardamento em Brasília [Foto: Arquivo Pessoal]
Excelência NotíciasEssa transição da carreira do senhor como policial militar para o cargo de delegado na esfera civil representa uma garantia maior à sociedade de Uruaçu que seu trabalho será realmente de linha dura e pulso firme, em função de algumas situações de violência extrema que o senhor encontrava nas ruas do DF em operações da PM de Brasília? Ou existe um pouco de folclore das pessoas por esse aspecto?

Dr. Rafhael Neris – Creio sim que exista um pouco de folclore nessas comparações. Nós, agora, elegemos um presidente (Bolsonaro) que foi militar das Forças Armadas. Por isso, muito se falou na volta do Regime Militar de 1964; em tortura; e em quebra de direitos. Acho que não cabe esse tipo de comparação. Militarismo é uma coisa; Exército é outra coisa; bem com a Polícia Civil é uma coisa; e a Polícia Militar, também. Cada uma dessas forças trabalha exatamente dentro de suas atribuições legais e constitucionais. Mas sempre com união, pois é assim que se faz Segurança Pública. Temos que trabalhar juntos, um desses componentes não pode estar afastado do outro. Numa cidade pequena como Uruaçu, nem tem como a gente não se unir.

Excelência NotíciasAinda na conversa informal que tivemos, o senhor fez uma comparação curiosa entre Uruaçu e a cidade americana de Beverly Hills – uma das mais caras e mais seguras do mundo, que fica na Califórnia/EUA – também com cerca de 40 mil habitantes. Por que?

Dr. Rafhael Neris – Isso porque nós estamos com um projeto para melhorar Uruaçu em vários aspectos. Qual o meu papel, como delegado? A Segurança Pública. Notei que Uruaçu ainda é uma cidade tranquila, pacata; e quero resgatar, aqui, aquele clima mesmo de cidade do interior de Goiás, onde as pessoas poderão dormir com a porta aberta das suas casas; deixar sua bicicleta na rua sem precisar trancar com cadeado, enfim. Quero que Uruaçu se torne uma cidade conhecida, respeitada, com estrutura, onde todo mundo se conhece e se cumprimenta, sem violência. Esse é o meu objetivo enquanto eu for delegado por aqui.

Ainda na PMDF, o então soldado Neris registrou importante sua passagem na carreira militar ao lado de sua avó, dona Niva: apoio incondicional da família e superação de dificuldades até chegar ao cargo de delegado em Uruaçu foram importantes em sua evolução profissional [Foto: Arquivo Pessoal]
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