Niquelândia

Polícia Civil abre inquérito para apurar derrame de ‘prints’ de WhatsApp contra vice-prefeito

Delegado Gerson de Sousa não acredita que Saullo Adorno, Izacar Batista e Darlaynne Fernandes teriam trocados mensagens no aplicativo para discutir assuntos de natureza financeira escusa: autoridade policial crê em falsificação grosseira, feita por contato 'fake' na noite da terça-feira/21

O delegado-titular da Polícia Civil em Niquelândia, Gerson José de Sousa, detalhou ao Portal Excelência Notícias nesta sexta-feira (24) a linha de investigação que seguirá para identificar o autor (ou autores) do vazamento de ‘prints’ (capturas de tela) – bem como a autenticidade ou não dos mesmos – num grupo de WhatsApp da cidade do Norte do Estado na noite da terça-feira (21).

O número de celular seria um ‘fake’, de um indivíduo de prenome “Pablo”, que retirou-se do ambiente virtual coletivo imediatamente após o derramamento dos ‘prints’. (veja reprodução dos mesmos no decorrer da reportagem, abaixo).

Em linhas gerais, o conteúdo das supostas conversas sugere a existência de uma relação financeira de bastidores entre quatro pessoas da cidade, que teria o intuito de denegrir a imagem de adversários políticos, pelo fato de estarmos em ano eleitoral.

Um dos ‘prints’ derramados num grupo de WhatsApp em Niquelândia, na última terça-feira/21: delegado acredita em falsificação grosseira [Foto: Reprodução/WhatsApp]
Nesse sentido, três das quatro pessoas sentiram-se prejudicados com o que consideram “uma montagem”; e procuraram a Polícia Civil na tarde da quarta-feira (22), para registrar queixa, o vice-prefeito da cidade, Saullo Adorno (PTB), de 33 anos; o administrador de página de Facebook de cunho sensacionalista, denominada “Muda Niquelândia”, Izacar Batista Lemos, de 25; e a jovem Darlaynne Fernandes de Oliveira, de 31. Os três estão na oposição ao atual prefeito de Niquelândia, Fernando Carneiro/PSD (leia mais sobre o assunto no final desta reportagem).

Para a autoridade policial, a exemplo do que argumentaram as três pessoas tipificadas como vítimas, a hipótese mais provável é realmente que as tais ‘conversas’ sejam realmente “montagens” com a utilização de programas para trabalhar com imagens em celulares e em computadores.

“Nós, da Polícia Civil, estamos nos preparando para atuar fortemente nessa área, principalmente neste ano eleitoral. Nesse caso específico, sem citar nomes, nota-se claramente que existe uma evidente falsificação (dos ‘prints’). Ainda dependemos de trabalho pericial mas, da forma que os ‘prints’ foram apresentados, denota-se que são imagens bem grosseiras”, disse o delegado.

Segundo Gerson de Sousa, o aplicativo de mensagens WhatsApp é uma ferramenta de difícil elucidação de crimes por não manter banco de dados em seus servidores, uma vez que os dados ficam no próprio aparelho do dono da conta do serviço.

“A gente percebe que há falsificação quando o ‘print’ sai com as mesmas características de outros históricos de conversas já gravadas”, afirmou a autoridade policial.

“Estamos trabalhando no sentido de coibir e combater essas falácias, esses fuxicos; essas difamações; e os crimes contra a honra, de toda forma, porque isso é um novelo que não tem fim e pode partir para um agravamento dessa situação, que se torna intolerável”, completou Gerson.

O delegado elencou o artigo 288 do Código Penal, que versa sobre o crime de associação criminosa, para informar à sociedade que os administradores do grupo onde os prints foram derramados são diretamente responsáveis pelas notícias/fatos/situações divulgadas no ambiente virtual coletivo do aplicativo de mensagens.

Em outro trecho da suposta conversa, menciona-se possíveis contratempos se o trato financeiro fosse quebrado: fake derramou prints nesta semana em Niquelândia [Foto: Reprodução/WhatsApp]
“Minha ideia é, sim, começar a responsabilizar essas pessoas (os administradores de grupos) mesmo porque esses nomes que aparecem como ‘autores’ das notícias difamadoras certamente são ‘fakes’, certamente não existem. Nós estamos trabalhando no sentido de identificar a verdadeira propriedade daquele número, junto à operadora, porque pelo nome ninguém sabe quem é. Os administradores tem que fornecer dados de seus agrupados para que possamos saber quem é “Pablo”; e para que ele possa provar o que ele divulgou; e, se não provar, ele será indiciado”, detalhou o delegado de Niquelândia.

TRABALHO SERÁ MINUCIOSO – Gerson de Sousa disse que, num trabalho de investigação, nenhuma hipótese poderá ser descartada ao ser questionado, pelo Excelência Notícias, se apuraria ou não a existência da suposta relação financeira do vice-prefeito com Izacar e Darlaynne, conforme foi tentado evidenciar nos prints, pelo suposto ‘fake’.

“Em investigação, não se despreza nada. Mesmo que ela parta de uma má-origem (a tentativa de denegrir a imagem de terceiros, derramada no grupo), sempre fica aquela pulga atrás da orelha. Mas, na verdade, o expediente foi grosseiro, bem grosseiro. A Polícia Civil não pode perder tempo com a situação proposta, que é visivelmente fabricada”, afirmou Gerson.

Com base nessa argumentação, o delegado de Niquelândia descartou por completo a tese de que os aparelhos celulares de Saullo, Izacar, e Daryanne tivessem sido invadidos por hackers à captação das conversas, o que atestaria supostamente que os diálogos entre os três seriam fidedignos.

Na tela apreendida pela Polícia Civil, o vice-prefeito Saullo Adorno teria travado diálogo suspeito com Izacar Batista: delegado descarta veracidade do conteúdo [Foto: Reprodução/WhatsApp]
RISCO DE CRIMES GRAVES CONTRA A VIDA – “O que ocorre nos grupos de WhatsApp em Niquelândia, particularmente falando, são falsas acusações para puro ‘deleite’ pessoal e maquiavélico do indivíduo que ‘joga’ o nome de outro na rua, para dar risada, com total falta de responsabilidade. O que estou tentando, com o trabalho de priorizar a investigação desse caso, é evitar um homicídio, uma desgraça. Uma hora dessas, nesses grupos, alguém mexe com uma pessoa que não tem muito ‘tato’ e a resposta à essa maledicência será pela violência”, advertiu o delegado.

CONJUNTURA – PREFEITO E VICE-PREFEITO ESTÃO ROMPIDOS HÁ UM ANO

Euclides Oliveira*

A divulgação desses ‘prints’ de WhatsApp – falsos, segundo o delegado de Niquelândia – levantou grande polêmica na cidade do Norte do Estado. Isso porque o vice-prefeito Saullo Adorno (PTB) e o prefeito Fernando Carneiro (PSD) – vitoriosos no pleito suplementar de junho de 2018 – romperam politicamente em janeiro de 2019.

O afastamento partiu de Saullo: na ocasião, o Portal Excelência Notícias procurou o vice-prefeito de Niquelândia para que o jovem político expusesse suas motivações à ruptura, mas ele optou pelo silêncio com a imprensa geral.

Passados dez meses, em outubro de 2019, Saullo Adorno gravou um vídeo de quatro minutos que circulou nos grupos de WhatsApp onde fez diversas e duras críticas administrativas à gestão do médico, que foi o cabeça-de-chapa.

Porém, o conteúdo gravado não teve o apelo esperado, sendo considerado atemporal pela população, que criticou o atual vice-prefeito pela demora em dar respostas públicas à sociedade, tendo decidido por isso quando faltava exatamente um ano às eleições municipais do próximo mês de outubro.

Eleito vereador em 2012 com 839 votos e reeleito em 2016 com 1.060 votos, sendo o mais votado para a Câmara Municipal há quatro anos, Saullo Nogueira Taveira Adorno construiu sua carreira política em Niquelândia graças ao apoio incondicional de sua mãe,  Alexandrina Maria Nogueira Guerra Adorno, a popular “Dona Xanda”, que faleceu em maio de 2018.

Com grandes influências nos hospitais públicos de Goiânia e de Anápolis, “Dona Xanda” era enfermeira-chefe do Hospital das Clínicas de Goiânia, onde também atuou como chefe do Departamento Pessoal.

“Dona Xanda” sempre foi muito solicitada pelos niquelandenses à intermediação/liberação de vagas de UTI nas maiores cidades do Estado; e se tornou muito popular na cidade.

No interior de Goiás, mais do que boas propostas de governo, o que tem valor numa campanha é o que se conhece por “serviços prestados”: a ajuda a determinado indivíduo é mais valorizada que uma ação em prol da coletividade como um todo.

A comoção popular causada pela morte de “Dona Xanda” – bem no momento em que Niquelândia teve Valdeto Ferreira e Celino Correa afastados dos cargos de prefeito e vice – catapultou Saullo Adorno à condição de candidato a vice-prefeito de Fernando Carneiro/PSD.

Médico de poucas palavras, carinhoso com seus pacientes, Fernando Carneiro tinha seu nome sempre lembrado como provável candidato a prefeito de Niquelândia, durante os anos anteriores. Ficou conhecido com uma figura simples e popular.

E assim, se tornou o mais votado da história da cidade, com mais de 72% dos votos válidos, acompanhando pelo então vereador Saullo, que renunciou a seu segundo mandato no Legislativo.

No exercício efetivo do mandato de ambos, começaram os problemas: Saullo -eloquente e experiente na oratória política – buscava sempre maior visibilidade que o próprio prefeito de Niquelândia, até então pouco ou nada habituado a discursar em eventos e cerimônias.

Antigos aliados políticos de Saullo, que tinham relação próxima com o jovem vice-prefeito, começaram o alertar dos excessos que ele cometia em querer destacar-se mais que o próprio chefe do Executivo, reforçando a ele a hierarquia dos cargos que cada um ocupava.

Seus críticos, nos bastidores, chegavam a afirmar que Saullo Adorno teria repetido, por reiteradas vezes, que ‘os votos que elegeram o Fernando eram meus’, o que causou grande mal-estar com o atual prefeito de Niquelândia.

Porém, os mesmos críticos também defendiam a tese de que seus votos eram, na verdade, os votos de Dona Xanda. O rompimento político tirou, definitivamente, a oportunidade do jovem político de esperar pela sua vez de ser candidato a prefeito; e de provar que os votos de sua mãe eram realmente seus.

*Euclides Oliveira é jornalista e editor-geral do Portal Excelência Notícias, em Niquelândia. 

PARCERIA DESFEITA – Saullo Adorno, vice-prefeito de Niquelândia; e Fernando Carneiro, prefeito da cidade, em foto de fevereiro do ano passado, na Câmara Municipal de Niquelândia: sucessão de desgastes culminou no rompimento político entre os dois [Foto: Reprodução/Facebook]

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