Advogada é presa por delegado em Cocalzinho de Goiás após postar vídeo no Instagram: OAB-GO pede apuração sobre possível abuso de autoridade
Aricka Cunha foi detida e algemada na quarta-feira/15 por determinação do delegado da Polícia Civil Christian Zilmon Mata dos Santos, sob alegação de difamação: na gravação, advogada queixou-se pelo fato da autoridade policial arquivar caso em que ela fora ofendida por um terceiro, na mesma rede social
A prisão de uma advogada dentro do próprio escritório em Cocalzinho de Goiás – após publicação em rede social – motivou a adoção de medidas institucionais pela Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Goiás (OAB-GO), em Goiânia, para apurar possível violação de prerrogativas profissionais.
A profissional Aricka Cunha foi detida na tarde de quarta-feira (15) por determinação do delegado da Polícia Civil Christian Zilmon Mata dos Santos, sob alegação de difamação.
A prisão ocorreu após a divulgação, pela advogada, de trechos de um despacho de arquivamento de uma ocorrência policial em que Aricka teria sido destratada por um terceiro no Instagram, acompanhados de comentários críticos sobre a postura da autoridade policial no caso.
Segundo as informações apuradas, o conteúdo publicado fazia referência a documento oficial que indicava o arquivamento do procedimento por “fato atípico e falta de efetivo”, sem menção direta ao nome do delegado.
Imagens registraram o momento em que o delegado se dirigiu ao escritório da advogada e efetuou a prisão no local de trabalho.
A profissional permaneceu detida até a noite, sendo liberada após pagamento de fiança fixada em R$ 10 mil.
APURAÇÃO PELA OAB-GO – Diante do ocorrido, o Sistema de Defesa das Prerrogativas (SDP) da OAB-GO instaurou procedimento para apurar a conduta do delegado.
A medida foi formalizada por meio da Portaria nº 05/2026, assinada pelo presidente do órgão, Alexandre Carlos Magno Mendes Pimentel.
Na avaliação do SDP, há indícios de violação ao Estatuto da Advocacia, especialmente quanto à inviolabilidade do escritório e às hipóteses legais de prisão de advogados no exercício profissional.
O documento ressalta que a prisão em flagrante somente é admitida em caso de crime inafiançável, o que, em tese, não se verifica na situação relatada.
Entre as providências adotadas, estão a representação por abuso de autoridade junto ao Ministério Público, o acionamento da Corregedoria da Polícia Civil e da Secretaria de Segurança Pública, além da atuação da Procuradoria de Prerrogativas para requerer a nulidade do auto de prisão em flagrante.
O presidente da OAB-GO, Rafael Lara Martins, afirmou que a entidade adotará todas as medidas cabíveis para apurar os fatos e responsabilizar eventuais excessos.
Já o presidente do SDP destacou que a violação de prerrogativas atinge diretamente o direito de defesa e a própria cidadania.
“HOJE NÃO É SOBRE MIM” – Em manifestação publicada após o episódio, a advogada afirmou que o caso extrapola a situação individual e envolve o exercício da profissão.
“Hoje não é só sobre mim. É sobre até onde o abuso de autoridade pode chegar”, declarou.
Ela acrescentou que foi algemada dentro do próprio escritório por manifestar sua opinião, destacando que uma advogada, no exercício da profissão, ser algemada por expressar um posicionamento não é algo normal, legal ou aceitável.
A profissional também afirmou que houve desrespeito a garantias constitucionais e profissionais, ressaltando que a Constituição assegura a liberdade de expressão e que o Estatuto da Advocacia garante a inviolabilidade do escritório.
Segundo ela, no entanto, na prática o que se viu foi o descumprimento desses direitos à luz do dia.
Segundo a advogada, a situação evidencia riscos mais amplos, ao destacar que, se isso acontece com ela, no exercício da profissão e dentro do próprio espaço de trabalho, é possível imaginar o que pode ocorrer com quem não tem voz.
Ela afirmou ainda que pretende levar o caso adiante, deixando claro que não vai se calar, não apenas por si, mas pelo que o episódio representa.
Para a advogada, casos de abuso de autoridade não devem ser normalizado, e sim enfrentados até o fim.
OUTRO LADO – Diante da repercussão do caso, o delegado Christian Zilmon Mata dos Santos afirmou que a prisão de Áricka foi baseada na sua condição de cidadã, e não advogada, tendo sido adotada depois de a PC de Cocalzinho de Goiás tomar conhecimento das postagens feitas por ela na internet.
Segundo ele, ela fez insinuações mentirosas de que a autoridade policial teria agido para prejudicá-la, de forma deliberada. Christian Zilmon também explicou o que ocorreu no escritório da advogada, quando da prisão.
Como se sabe, a advogada teria divulgado conteúdo crítico à sua atuação, afirmando que uma ocorrência registrada por ela não teria sido apurada.
Ele sustentou que a ausência de providências imediatas decorria de limitações operacionais, como falta de efetivo e acúmulo de procedimentos em andamento.
De acordo com a versão apresentada, ao chegar ao escritório, a advogada teria se exaltado e proferido ofensas contra a autoridade, incluindo questionamentos sobre sua capacidade funcional e menções de cunho pessoal. O delegado também afirmou que houve recusa em cumprir ordens durante a abordagem.
Diante desse cenário, foram imputados à advogada os crimes de desacato, injúria e desobediência, além da suposta difamação relacionada às publicações.
Segundo ele, foi necessário o uso de algemas diante do comportamento apresentado no momento dos fatos.
Ao comentar o episódio, o delegado afirmou que a atuação seguiu os parâmetros legais e destacou que “ninguém está acima da lei”, independentemente da profissão ou condição pessoal.
“Depois ela disse que a autoridade policial não tinha capacidade de conduzir (a investigação que a PC decidiu pelo arquivamento) e que tinha algum problema mental. E depois, ela, descontrolada, não queria obedecer à ordem. Houve, também, desobediência. E aí teve que ser algemada”, disse o delegado.
O QUE DISSE A PCGO – Em nota enviada à imprensa, a Polícia Civil de Goiás informou que o fato foi levado ao conhecimento da Superintendência de Correições e Disciplina da PCGO, que está tomando as providências necessárias para a apuração do ocorrido. [Com informações do site Rota Jurídica, sob adaptações editoriais do Portal Excelência Notícias/Niquelândia]





